CONTO I – 

O trovejar da Granada

“Eu me lembro da primeira vez que o vi. Eu já havia acordado há meses, talvez até anos, não sei ao certo. Não tenho muitas lembranças de quando acordei, cego, surdo, atrofiado, saindo de uma câmara esquisita. Até me dar conta de estar em uma pequena e deserta ilha. Improvisei uma jangada com troncos de árvores que nunca havia visto e parti. Parando em diversas ilhas próximas, buscando alimento e até conhecendo pequenas cidades. Mas tudo isso é muito vago. Não passam de flashes, como se fossem um sonho distante.

 

Mas aquele dia, o dia que o conheci, parece ontem. Ainda que já faça bem mais de vinte anos. O dia que conheci a “trovoada” ecoando nos céus. Era um magricelo esguio e malandro, que procurava colmeias na mata e com fumaça espantava as abelhas, mas em vez do MEL, pegava a cera para moldar seu bigode e cavanhaque. Foi num dia que, em minhas andanças, cheguei numa cidade.

 

Até hoje nunca soube o nome, mas era uma cidade em uma das ilhas mais estranhas que já havia visto. A cidade não era primitiva como as outras, mas “uma floresta de pedra”. Lotada de prédios, todos iguais, alinhados, como se fossem um condomínio. Havia uma arena no meio, uma enorme base com uma cerca, provavelmente uma ilha de uma base militar, que de fato era cercada por um campo de força, o que me levou a crer que ela se manteve intacta ao longo de milênios. Mas o povo era maltratado, os homens eram obrigados a lutar numa arena para serem trucidados como ovelhas por um poderoso MITHO, enquanto as mulheres deviam se submeter aos desejos carnais desse mesmo. Obviamente eu já tinha descoberto minhas habilidades, e não me agradava nem um pouco o que ocorria ali.

“Chacina” era como ele se intitulava. Um cara com quase dois metros de altura, um físico de halterofilista, e, acabei descobrindo, se tratava de um P14, um Mitho dotado de conhecimento de todas artes de combate e armas existentes. Não era à toa que ele massacrava pobres humanos naquela arena. E naquela época, eu ainda era ingênuo. Achava que poderia resolver as coisas na base da conversa. E fui tentar conversar com um “demônio” que se auto intitulava “Chacina”. Eu não me lembro direito, só lembro de começar a ser espancando. Mesmo grande e forte, sua velocidade era inigualável. Tomei a maior surra que já havia tomado na vida. E disso eu me lembro:

– “Não se meta nos meus negócios” – Foi o que ele disse, quando eu estava no chão e ele me segurava com um pé sobre meu peito, enquanto sacava a espada para pôr fim à minha vida. Foi naquele momento que ouvi um estrondo, seguido de um “pi” nos ouvidos "semiensurdecidos". Era um enorme disparo, uma bola de plasma atirada contra o Chacina, que se esquivou, jogando-se pro lado. Lembro que apenas levantei e corri na direção oposta.

 

E foi ali que conheci o magricela malandro, que descrevi anteriormente, com seu cavanhaque “encerado”, estendendo de longe a mão e dizendo algo que eu não conseguia ouvir. Apenas corri na direção dele. Segui-o por entre os prédios até chegarmos em um bueiro, onde entramos nos esgotos. Após uma pequena caminhada, uma enorme cidade, feita de tendas, barracas, e todo tipo de sucata, apareceu. Foi quando ele tirou o capuz que cobria parte do nariz e os olhos, expondo seu rosto, e finalmente consegui ouvi-lo, na segunda vez que ele repetiu a frase:

– Eu sou Granada Negra. E você meu amigo? Como se chama? –  Foi curioso. Por anos, ninguém havia me feito essa pergunta. Ou me chamavam de “tu aí”, ou de todo tipo de coisas, mas eu não sabia meu nome. E isso nunca havia importado até o momento.

– Eu... Eu não sei – ele sorriu de um jeito malandro quando respondi, e disse:

– Certo, vamos chama-lo de “sem-nome” então! Mas posso ver que MITHO você é pela sua tatuagem! – Ele concluiu. E me perguntou se eu estava ali pra derrotar o “Rei Chacina”. Ora, eu nem sabia da existência daquela ilha. Tive que lhe falar a verdade. A princípio ele baixou a cabeça, mas disse que com dois Mithos como nós, poderíamos vencê-lo.

 

Ele me convidou até sua oficina, e por Deus! Ele era um fanático por armas, de todo tipo e tamanho, desde minas terrestres feitas com latas de sardinha, granadas esquisitas, até bazucas feitas com canos de ferro. E fiquei o observando trabalhar. Era impressionante. Ele pegava um fogo de chão, derretia metais e coisas que nem sei o que eram, esculpia um formato numa madeira grossa, e moldava pontas de flechas, e só me lembro de ele ter feito um arco e três flechas antes que eu pudesse perguntar o que ele estava fazendo.

–  É por isso que me chamam de Granada Negra, meu amigo, explode rápido e você fica no escuro sem ver o que lhe atingiu. – Ele me disse rindo. Embora fosse um fanático por armas, totalmente aficionado, era uma boa alma, desejava eliminar  o tal “Rei Chacina” para que todos pudessem viver em harmonia, sem ter que se esconder ou se submeter às vontades de um louco.

             

Foi quando vi a bazuca. Uma espécie de espingarda de plasma. Que disparava uma bola de energia. E foi quando cometi o erro de palpitar:

– Infelizmente a bola é pequena, ele esquivou fácil. – Ele apenas me olhou e sorriu, e começou a moldar a tal arma:

–  Um cabo mais comprido... – disse ele – uma lâmina no decorrer do cano... – continuou: – Se ficar sem carga, pode ser usada como uma espada, disse ele.

E tanto mexeu, até finalmente concluir:

– Bom, acho que ele não conseguirá se esquivar. Agora ela dispara um cogumelo de plasma! Uma bomba atômica na horizontal! – Ele me disse enquanto gargalhava.

– “Hora de testar!” – Ele disse. A colocou num pedestal, amarrou uma corda no gatilho e nos abrigamos mais afastados.

 

Quando disparou, destruiu não só tudo que havia pela frente, como a arma voou pra trás com o recuo, saindo do pedestal e literalmente quebrando a parede oposta. Num verdadeiro som de trovão. Nunca me esqueço do olhar que ele me deu, enquanto nós dois surdos, chamuscados, nos entreolhávamos, e consegui ler os lábios dele me dizendo “ainda bem que ajustei pra carga mínima”, então caímos na gargalhada.

 

Por fim me retirei, e resolvi ceder ao sono e descansar. Pela manhã ele me acordou empolgado:

– “Vamos, o plano está pronto!” – Ele me disse. Respondi:

– “Está maluco? Nenhum humano comum conseguiria aguentar o recuo daquela arma!” – Ele apenas sorriu. Pegou granadas, pistolas, todo arsenal possível, peguei apenas o arco com três flechas que nunca havia usado, apenas para não ir de mão abanando. E quando saímos dos subterrâneos, indo para a praia, ele me disse:

– “Sem-nome”, apenas faça o que eu disser e tudo dará certo!”

 

Ao chegarmos na praia, a arma estava em um pedestal, o cano voltado na direção da cidade e sua parte traseira voltada para o campo de força que circundava a cidade. Lembro que perguntei o que deveria fazer, ele me disse: “ apenas espere”. Não deu dez minutos, Chacina apareceu:

– “Rato de bueiro! Pensa que pode me desafiar para um duelo?” –  disse ele com a espada em punhos, bufando.

– “SEM-NOME! CORRA PARA A BAZUCA AGORA!!!!” – Granada gritou. Fiquei, como dizem: “sem eira-nem-beira”. Corri na direção da arma, mas Chacina também correu. E de imediato, ele me deu um forte tapa com a planta da mão, me derrubando logo que comecei a correr.

Foi quando pensei ter estragado tudo. Estava caído, próximo ao Granada, que olhava na direção do Chacina, que já estava segurando a arma no pedestal:

– Hahaha! Tolos! Além de morrerem, ainda me presenteiam com essa maravilha de canhão!

 

Então ele disparou. Era carga máxima, quase desmaiei com a “trovoada” que gerou. Ele não conseguiu controlar a mira, e o tiro foi pro alto, passando sobre os prédios, e o recuo da arma o arremessou junto com ela contra o campo de força da ilha, esmagando-lhe o tórax.

Foi quando me dei conta do que aconteceu, e o quanto o Granada tinha de maluco, tinha de genial. O plano era esse o tempo todo.
 

Vou pular uma pequena parte da história, que retornarei depois. Mas o que aconteceu foi que a ilha foi liberta da tirania e opressão daquele louco, e logo depois o Granada Negra se mandou. Ele era como eu, ia de ilha em ilha ajudando quem precisasse. E sem querer ser falador, mas parece que ele também estava se “mandando”, pois havia engravidado uma moça e segundo ele “não nasceu para ser pai”. Nunca imaginei que ele acabou se unindo ao grupo do Doutor, mas agora devo retornar para a pequena parte que pulei.

Logo após o Chacina disparar a arma, o Granada já correu lá pra perto, cantando vitória, e quando se virou pra mim, pra nossa surpresa, num último suspiro, o Chacina se levantou, moribundo, na tentativa de empalar o Granada com sua espada num ultimo fôlego de vida. Foi quando disparei uma flecha, passando do lado da cabeça do Granada e acertando perfeitamente no coração do Chacina. Foi aí que “ganhei” meu nome. Eu disse:

– Granada... Você é insano! – E ele me respondeu:

– E você meu amigo... Tem OLHOS DE ÁGUIA.”

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)