CONTO III – 

“Pondo as “Garras” de fora”

 

 

 

Sabe que se me deixar falar, vou passar o dia aqui sentado com você, enchendo seus ouvidos de baboseiras do passado que talvez nem queira ouvir e esteja apenas sendo gentil, não é mesmo? Mas dizem que recordar é viver. E se isso for verdade, meu Deus, tenho muito para viver. Você nos conheceu nessa situação atual, numa condição bem diferente. Mas não pode nem imaginar o que todo o grupo viveu junto.

 

Eu lhe contei como “ganhei” meu nome, que acabou sendo encurtado apenas para Águia, contei sobre o troço e sobre o grupo. Sabe, eu nunca fiz parte do grupo de andarilhos, mas sei muito a respeito.

 

Não sei se lhe falei, mas Maureen e o Doutor eram um casal. Ainda que ela fosse um holograma, sempre houve amor por parte dos dois. Devia ser triste, um amor real, mas platônico. Estarem juntos, mas nunca poderem se tocar. Dizem que o Doutor era diferente naquela época, mais humano. Não que ele não seja mais, ele tem um coração enorme, mas falam que depois que ela se separou, ele se tornou mais frio e distante. Maureen voava muito rápido por tudo, fazendo uma patrulha nas redondezas enquanto eles todos iam navegando no ‘troço’. Até que um dia ela nunca mais voltou. Somente anos depois que descobriram que ela passou numa ilha onde havia uma base militar ativa e seu disco foi danificado, impossibilitando-a de voar.

 

Vou lhe contar um segredo: até hoje, a maior obsessão do doutor sempre foi e sempre será encontrar um meio de ficarem juntos. Mas o disco dela é indestrutível. Apenas o sistema de voo que pode ser danificado, mas a parte que armazena a “mente” dela é de Trillium, totalmente lacrado - o único meio de abrir seria derretendo esse Trillium, mas colocaria a existência dela em risco.

 

Enfim, o que quero falar dessa vez é sobre o que me contaram dos membros do grupo, primeiramente. O Doutor você conhece, um tanto quanto frio e distante, mas com um coração gigante, sempre botando o bem-estar dos outros em primeiro lugar. É um Mitho dotado de todo conhecimento científico existente. O Granada Negra, cheguei a conhecer, como bem lhe disse, era um sacana pirado, sempre criando armas e geringonças incríveis, e com um senso de humor hilário só superado pela bondade em seu coração, muitas vezes ocultada pelas suas piadas e genialidade. Ele era um Mitho como eu. Possuindo todo conhecimento de armas, conhecimento militar e afins existentes. O Padre possui visão suprema, mira perfeita, e sempre foi um dos mais equilibrados e ponderados do grupo. E o pregador, claro, o homem de fé entre eles. O Marklar é um super soldado biônico, como se fosse uma versão aprimorada do Leeroy. Segundo o Doutor, era o mais poderoso do time, mas ao mesmo tempo sempre foi o líder, por assim dizer. Embora o Doutor tivesse montado o grupo, Marklar era quem tomava a frente, iniciativa, sempre imponente e calmo.

 

E já que falei do Leeroy, já vou aproveitar e falar dele: outro malandro e gozador, meu Deus, as histórias que ouvi de quando ele e o Granada se juntavam... Sério, foi do Leeroy que saiu a ideia da granada de metano, e o Granada não perdeu tempo para botar em prática. Criou uma pequena granadinha que soltava um cheiro de ovo podre. E eles usavam só pra sacanear. Certa vez fecharam o “troço” com o Belker dentro e jogaram uma dessas. Ele vomitou o barco inteiro e saiu furioso - falando dele, era o mais cabeça quente do grupo. Se não fosse pela intervenção do Padre e do Doutor, eles teriam partido pra violência aquele dia. O Belker era um MITHO com a musculatura fundida com Axllium, ampliando a força dele e tornando-o praticamente invulnerável. Ele usava um machado enorme. Outro fato que me contaram foi da vez que, de sacanagem, o Granada criou uma super cola e passou ao longo do machado, fazendo-o ficar colado nas mãos do Belker quando ele empunhou. Pra piorar, ele convenceu o Belker que a cola somente era dissolvida com amônia, e que a única forma de conseguir amônia era através da urina. Acredite ou não, mas o Belker furioso concordou em deixar o Granada urinar nas mãos dele, pra só depois ficar sabendo, em meio as gargalhadas do Granada e do Leeroy, que a cola se dissolvia em uma hora. Desculpe, estou divagando novamente. Por fim, tinha o Garra. Ele era um homem meio felino, todo preto, como uma pantera. Ele era o mais misterioso do grupo, quieto, calado, até meio frio. Raramente ria das piadas. E nem o Granada e o Leeroy mexiam com ele, a única coisa que faziam era chateá-lo fazendo piada quando estavam em lugares altos. O Garra sempre dizia não gostar de alturas, e o Granada e Leeroy diziam “Ué? Gatos não caem sempre em pé?”, mas era só isso, pois ele não reagia às piadas, ficava sempre em silêncio, e claro, achavam mais engraçado mexer com o Belker, que ficava furioso, e diziam que a piada só tem graça com quem fica bravo. E de fato ninguém nunca sabia o que esperar do Garra.

 

Mas foi ele que descobriu onde e o que havia acontecido com Maureen. Um certo dia ele simplesmente disse que iria se afastar um tempo porque tinha “coisas que queria fazer” e quando retornou, descobriram que o que ele “tinha pra fazer” era essa busca. Segundo ele, em um determinado local ele conseguiu “farejar” o cheiro da fumaça das turbinas de voo dela.

Dizem que outras vezes ele passava o dia dormindo no “troço” e não ajudava em batalhas. Como disse,  não sabiam o que esperar dele. Por consequência, para nosso arrependimento eterno, nunca confiamos nele, se sequer imaginássemos o que viria a acontecer... Bom, você viu o retrato dele no nosso memorial. Foi mais uma das perdas que tivemos, antes de restarem os MITHOS que você conhece.

 

Mas você não sabe como ou o que houve exatamente, certo?

Isso não faz muito tempo, alguns poucos anos atrás. Marklar já tinha ido para sua própria ilha, Belker escolhido ficar na cidade, o Padre sumido em suas andanças... Até foi uma surpresa o Garra ter ficado conosco. Enfim, já estavam iniciando a empreitada atual. Mas as coisas ainda eram diferentes, inclusive nossos inimigos. A Matilha, por exemplo, ainda não existia. E nosso real inimigo, que você conhece bem, ainda se escondia atrás de muros, enquanto seus soldados, Mithos e todo tipo de monstruosidades, faziam o trabalho sujo dele.

 

Bom, naquele tempo, o cãozinho principal dele era o Armada, um sujeito que era a mistura de dois tipos de MITHO. Pernas e braços biônicos. Meu Senhor, ele era terrível. Matou muita gente inocente. Tinha o hábito de sempre inclinar a cabeça pro lado, estalando o pescoço. Andava só com uma tanga, expondo a musculatura reforçada, as cicatrizes. E sempre com um sorriso irônico com dentes amarelados e sujos que contrastavam com sua careca brilhante. Ele era imbatível para os Mithos do nosso grupo. Minhas flechas não penetravam a pele dele, sem falar que ele era rápido demais e conseguia se esquivar de tudo. Os tentáculos do doutor também não o feriam, as garras do Garra não faziam nem cócegas. Talvez... se tivéssemos a força do Marklar, a genialidade do Granada, o arsenal e a mira do Padre... Mas não. Estávamos indefesos contra ele.

 

Aconteceu numa manhã, na qual o doutor estava desacordado, pois sua bateria de sustento havia sido destruída pelo próprio Armada alguns dias antes. O Granada tinha criado pequenas “bases secretas” por toda parte. Até hoje deve ter alguma esquecida, porque ele criava tanta tralha que não havia onde guardar. Inclusive, não sei se comentei, mas a Trovoada que contei na minha primeira história, foi dada para Natalie. Enfim, continuando, precisávamos ir até uma dessas bases para pegar uma bateria, e sabíamos que tinha na antiga cidade, a que afundou na ravina, preservando as construções evoluídas do passado. E afinal, era a mais próxima da nossa cidade.

 

Então fomos, eu, carregando o Doutor, desacordado, por sobre meus ombros, e o Garra. Logo depois de sairmos da base, vimos Armada, para nosso desespero, parado, olhando pra nós e sorrindo, enquanto estalava o pescoço. Gelamos. Afinal, ele agora sabia onde ficava nossa base. Eu só conseguia pensar que era nosso fim. Com o doutor totalmente incapaz, ele nos mataria como coelhos, e depois sozinho massacraria os outros poucos Mithos que estavam na cidade e todos os cidadãos. Pensei em correr, mas sabia que o Armada nos alcançaria em milésimos de segundo.

Mas eis que ele começou a caminhar, todo desengonçado. Foi quando reparamos que por ele ter as solas dos pés arredondadas, para correr sobre a água, o chão todo quebrado e desnivelado o impedia de correr ali a menos que ele já estivesse em movimento. E então Garra e eu gritamos em uníssono: “CORRA!”

 

Começamos a correr, o Garra ia na frente, correndo como quadrúpede, e parando um pouco, pois eu não conseguia correr rápido com o Doutor em meus ombros. E o Armada continuava avançando. Vimos que não adiantaria correr. Precisávamos de algum plano, do contrário, ele IRIA nos alcançar.

 

Foi quando o Garra tomou a frente e gritou: “Por aqui!” na porta de um prédio, já entrando. Entrei logo atrás, com o Doutor, e vi o Garra subindo as escadas. Não entendi, mas sem opções, resolvi segui-lo. Após ir subindo lentamente os lances de escadas, pensando que tinha “pulado do fogo pra frigideira”, olhei pra baixo e vi o Armada praguejando. As pernas dele TAMBÉM não foram projetadas pensando nisso, então para subir as escadas ele tinha de botar uma perna por vez em cada degrau, nos dando muita vantagem e me permitindo respirar aliviado. Não sabia o que faríamos depois, mas não tinha outra opção a não ser continuar. O Garra se sumiu na frente, e eu fui subindo com o doutor. E acredite ou não chegamos no último andar. Septuagésimo. Sim. Subi setenta andares, chegando numa sala sem saída, cuja a frente era uma parede toda de vidro que dava pra ver que estávamos quase na altura do topo da Ravina. Fui até a janela e conferi a altura insana na qual estávamos. Não havia sinal do Garra.

Em seguida olhei para as escadas e finalmente vi o Armada entrando na sala, sorrindo e estalando o pescoço como habitual. Ele veio caminhando em nossa direção, lentamente, com um sorriso de quem diz “vou apreciar isso”. E eu estava sem nem sequer uma adaga - a propósito, foi a partir desse dia que nunca mais andei desarmado.

 

Quando pensei que fosse o fim, o Garra surgiu das escadas. Com sua agilidade ele deve ter pulado de um lance para outro mais baixo, e ficado atrás do Armada sem que ele percebesse. Aquele “gato” era genial também, a gente só não havia percebido. Ele já tinha tudo planejado.

Foi quando o Garra soltou a frase e sorriu, correndo com toda sua velocidade, dando um bote de surpresa no Armada, abraçando-lhe e fazendo ambos atravessarem a vidraça, indo de encontro ao chão. Eu nem tive tempo de gritar. Olhamos lá de cima, e mesmo com o Garra caindo por cima do Armada, ninguém poderia sobreviver a uma queda daquela altura...

 

Depois de pegarmos a bateria, demos um funeral digno para o Garra. Ele não só venceu um inimigo imbatível, como salvou toda a cidade, pois a nossa localização nunca chegou até nosso inimigo, morrendo junto com o Armada. Nunca contei exatamente pro Doutor o que houve, para poupá-lo de se culpar. Disse que foi o nosso Temível inimigo que matou o Garra.

 

E, sabe, foi a única vez que vi aquele “gato” sorrir. Mesmo sabendo que saltava para a morte certa. Ah, qual foi a frase que ele soltou ao sorrir?

 

“Gatos não caem sempre em pé?”

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)