CONTO Ii – 

"um conto de fadas"

 

 

 

 

Bom, para finalizar minha história anterior, esqueci de contar-lhe que antes de voltar pra ilha do Doutor, o Granada ainda presenteou-me com uma alabarda, uma arma que uso mais como um cetro do que arma, seu nome é o “Uivo do Centauro”. Sinto falta daquele tempo... E mais do que isso, sinto falta deles. Acho que não é nenhuma novidade falar-lhe que infelizmente eles já faleceram. O Garra, o Leeroy, o Granada, e até o Belker que nos eventualmente nos traíra. Afinal, eles não estão aqui não é mesmo? E deves ter visto o memorial em homenagem aos três na cidade do doutor.

 

Mas não serei eu que irei contar-lhe como aconteceu. Eu vim pra cá para evitar batalhas, para viver em paz. E lamento, mas falar sobre a perda de meus antigos companheiros não é algo que faz-me bem. Venha, vamos dar uma volta pela cidade enquanto conversamos.

Sendo sincero, eu culpo-me por não ter dado mais valor a eles na época. Também me culpo por ter abandonado a batalha - talvez se eu estivesse lá, eles ainda estivessem vivos. Mas por mais que possa soar irônico, eu não fui feito para batalhas. Por mais que o projeto tenha transformado-me nesta máquina de guerra, minha índole não é a de um guerreiro, mas de um líder pacífico. Não lembro o que era antes de ser um Mitho, mas acredito que eu não se tratava de alguém com tendências violentas. Enfim, outra hora o Doutor conta-te o que houve com o Granada e os outros. Prefiro focar nossa conversa em assuntos menos... Mórbidos.

 

Mas então, o que achas da minha Ilha? As cabanas ficam a quase oito metros de altura. Do jeito que o Granada projetou as pontes e as escadas, nunca tivemos acidentes. No momento temos mais de duzentos humanos, contando mulheres e crianças, e além de mim, mais seis Mithos: Mortar, um ABB, aqueles de corpo todo robótico, sabe? Silverfox, uma moça meio canina, com traços de raposa e pelo platinado... Dharia, uma p12 de musculatura reforçada, como o Belker... Existem outros que preferem ficar mais ocultos, maioria membros do antigo grupo do Gigante. Haviam sete, mas Lótus, uma caçadora, partiu para outra ilha recentemente.

 

Falando no Gigante, ele também não está mais conosco, infelizmente. Embora enorme, com quatro braços, também era uma alma gentil, e não sabia nem gostava ou desejava lutar. Saiu em busca de humanos e Mithos que quisessem viver conosco e acabou parando em uma ilha governada por um Mitho desumano, que o tomou como uma ameaça e mandou executá-lo. O triste é que sei que se ele quisesse, ele poderia tranquilamente soltar-se. Mesmo não sabendo como foi exatamente, sei que se ele quisesse, ninguém o pararia. Mas Gigante simplesmente aceitou sua execução. Gosto de tentar confortar-me acreditando que ele já estava cansado do sofrimento que vivia e desejava descanso. Mas enfim, muito tempo depois soube que ele foi vingado e o cruel governante teve seu fim pela mão de um outro Mitho. Isso não o traz de volta, eu sei, mas ao menos sei que aquele desumano não irá derramar sangue novamente.

 

Disse que não queria falar de assuntos mórbidos, mas cá estou eu voltando-me para este tema... Mas é difícil, sabe? Tudo acaba resumindo-se a isso. Eu me abrigo nessa ilha para viver em paz, longe da violência, mas ela sempre acaba chegando até mim.

Tudo que eu queria era reconstruir a humanidade, reerguer a civilização. E me refiro a civilidade. Leis, organização, moral, ética, como um dia a terra foi. Será que é sonhar tão grande assim? Será que estou acreditando num conto de fadas?
 

Bom, se for de fato isto, nada mais apropriado, afinal... Eu sou um centauro.
 

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)