CONTO Iii – 

Um passeio a cavalo

 

 

 

 

 

 

Segundo me disseste, já está prestes a partir e tens tempo apenas para uma última história. Pois me deixas entre a cruz e a espada, humano. Realmente não consigo decidir-me sobre qual lhe contar.

 

Mas refletindo profundamente, acho que deveria falar-lhe mais sobre o Granada. Primeiro porque sinto-me me eternamente culpado, e acredito que muitos, assim como eu, veem apenas a parte externa dele. O malandro, safado, mulherengo, piromaníaco... E esquecem de algo que só notei realmente, depois que ele se foi.

 

Ouça-me com atenção: o Doutor era o fundador do grupo, e o engenheiro e construtor das nossas coisas. O Padre e o Águia, os membros sensatos e equilibrados e os artilheiros do grupo. O Leeroy era o melhor amigo do Granada, um gozador também, e embora ele e o Belker fossem a infantaria da equipe, a personalidade destes mesmos eram opostas, Belker era fechado e rabugento. Maureen, em sua breve participação, era a conselheira e a “mãezona” que botava juízo nos baderneiros. O Garra era um mistério completo, mas nosso batedor e explorador. Eu era quem tomava a frente, fazia a comunicação do grupo com os de fora e mesmo entre o grupo, o “líder”, digamos assim. E o Granada... Bem, ele era o malandro, o safado... Mas também o engenheiro, o artilheiro, parte da infantaria, batedor, diplomata e até mesmo sensato quando necessário. É algo que acho que ninguém nunca parou para pensar ou lembrar. O Doutor dizia que eu era o Tier mais alto do grupo, o mais poderoso... Mas o Granada era a alma da equipe. Não importa o que fosse preciso fazer, ele estava pronto. Sempre agitado, sempre pensando, querendo fazer algo útil, sempre querendo... Ajudar.

 

Eu lhe disse que foi ele que fez minha alabarda. A trovoada, que hoje é de Natalie, também foi criada por ele. As armas do padre todas foram aprimoradas por ele. Ele instalou faróis nos ombros de Leeroy, presenteeou o Águia com três shurikens com o veneno “mais letal já inventado”, embora eu ainda não tenha visto o águia usar... E caso não saibas, nem sempre o doutor voou. Inicialmente os quatro tentáculos lâminas eram usados por ele como patas para caminhar, foi o Granada que teimava “ser um desperdício” usar aqueles tentáculos daquela forma e criou um sistema de voo para o Doutor. Até o machado de Belker, que no fim foi usado contra nós, ele quem criou, na melhor das intenções.

 

Posso lhe assegurar que nunca imaginei que aquele malandro morreria, é claro que não gostava da ideia de qualquer um deles partir, mas ele era um dos quais eu nem mesmo considerava a possibilidade. Estava sempre atento, sempre um passo à frente de todos. Somente da forma que foi para ter acontecido. Se fosse um combate justo, ele nunca teria sido derrotado. A grande verdade é que não acredito nesse sistema de “tier” que o Doutor criou pra ter uma base de o quão aprimorado e poderoso cada Mitho é. Eu poderia matar o Granada com um tapa, atropelá-lo ou pisoteá-lo... Mas eu sei que ele nunca deixaria isso acontecer. Ele sempre tinha um plano. Planos de A à Z. A verdade é que não chegaria nem perto dele e ele me explodiria antes de qualquer coisa.

 

Sabe, hehehe... Desculpe, não costumo rir, mas não há como ao lembrar. Até dormir perto dele era impossível. Ele levava horas pra dormir, e ficava matraqueando infinitamente. Não foram poucas às vezes que saímos de perto dele, ou Belker perdeu a paciência e queria esmagá-lo. Mas ele dizia que o cérebro dele nunca parava.

Depois da cidade pronta, ele veio me visitar várias vezes, e nos tornamos bons amigos. A cada dois meses em média ele vinha para conversarmos, sempre trazendo novas melhorias para a cidade. E me contava como as coisas andavam por lá.

Depois da Morte do Armada, a nova ameaça era a Matilha. Um bando de P08, homens-caninos, mas sem inteligência, apenas instinto, controlados pelo inimigo. Enquanto Belker ficava no conforto, servindo de guarda-costas pessoal do nêmesis de meus ex-companheiros, depois de trocar de lado.

 

Eram nove “cães” a tal Matilha, mas em uma das nossas conversas, logo após o aparecimento dessa ameaça, o Granada já estava adiantado. Havia descoberto que eles enxergavam apenas por visão de calor, então montavam cortinas de fogo para fugirem e andarem se relevarem suas posições. É uma das coisas que mostravam o quanto ele era genial. O Doutor tem intelecto superior ao dele, mas sempre foi de ficar entocado, calculando, criando coisas, enquanto o Granada, além de fazer isso, também se expunha, não hesitava topar com o perigo. Ele era, de certa forma, mais prático.

Mas mudando o foco, e voltando para o assunto das visitas, ele vinha regularmente. Numa delas, depois de tomarmos chá, me senti muito mal e tive que regurgitar. Ele se matou de rir, confessando que botou laxante na minha xícara. Na visita seguinte, já esperando sacanagem, quando ele não observava, antes de bebermos, troquei as xícaras, e novamente passei mal, enquanto ele ria dizendo que sabia que eu trocaria, então colocou nas duas para garantir.

 

Na visita seguinte, eu mesmo fiz o chá, e me servi, segurando a xícara na mão, mas ele estava cabisbaixo. Disse que não iria fazer nenhuma piada, que não estava no “humor”. Ele obviamente ele não estava normal. Após breve insistência, ele me contou que de tanto mexer com dispositivos e máquinas estranhas, havia contraído uma extinta doença chamada câncer. Eu não pude acreditar. Ele tentou levantar para pegar algo e acabou apagando, imediatamente, o coloquei em minhas costas e corri buscando algum auxílio.

Quando estávamos bem no meio da multidão da cidade, ele ajeitou-se e sentou-se em mim, erguendo o braço e gritando a todo pulmão “EIAAA CAVALINHO!”

Fiquei furioso. Primeiro por brincar com uma doença tão séria, segundo por me humilhar em frente à toda cidade e terceiro por me assustar daquele jeito. Safado do jeito que era, ele já pulou em um cipó e correu por cima das copas das árvores, indo até o pequeno barquinho e zarpando antes que eu pudesse pegá-lo. Ele partiu, acenando, com aquele sorriso debochado e maroto, agradecendo a “voltinha” e dizendo que nunca havia andado a cavalo antes.

 

Quando a cabeça esfriou, eu até ri. E sete semanas depois, já esperando sua visita, preparei algumas pegadinhas para me vingar. Empurrei a latrina mais pra trás, deixando o buraco com excrementos bem na porta, coberto com folhas, passei a supercola que ele mesmo inventou na xícara que daria pra ele... Enfim, um “arsenal” de trotes.

Mas na manhã em que eu que o esperava, quem veio foi o Águia, dando-me a notícia de que, por si só, entorpeceu meu estômago: o Granada havia falecido em batalha. Águia me trouxe plantas de banheiros com sistema de esgoto, ideias nas quais o Granada estava trabalhando antes do trágico acontecido.

 

Nunca dei o troco naquele malandro. Mas o que me perturba mais, honestamente, foi nunca ter dito a ele o quanto a amizade dele significou pra mim.

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)