CONTO Ii – 

O"Presente" da Imortalidade

 

 

 

 

Sabe, eu já vivi muito mais tempo que a maioria, e ainda assim não tenho histórias incríveis para contar como o Mitho Águia ou o Mitho Padre. É irônico. Acho que eu poderia dizer, na verdade, acho não, digo sem sombra de dúvida, que “ironia” é meu nome do meio.

Já ouvi muito as pessoas acharem “o máximo” a “minha condição”, por assim dizer. Eu sou um Mitho P24, mente e aparência preservados eternamente em holograma. Diferente de você ou de qualquer outro Mitho, minha mente nunca envelhece. Em razão disso, vejo o tempo de uma maneira diferente, justamente para manter minha mente preservada, poderia dizer que “trabalho mais rapidamente” no processamento e percepção de tempo e espaço, entre outras coisas. Minha percepção de tempo se atém muito a acontecimentos importantes, enquanto que detalhes são descartados. Aconteceu, para minha infelicidade, do meu disco ser danificado por aproximadamente quinze a vinte anos mortais e por conta disso acabei ficando cerca de quinze a vinte anos – soube mais tarde - isolada. Mas para mim foi como se fossem setenta anos, pois a ausência de acontecimentos relevantes fez com que meu sistema percebesse o mundo de uma forma muito superficial, fazendo com que surgisse a impressão de muito tempo ter se passado. Eu sei que a cada minuto que passa minha mente vai trabalhando cada vez mais rápido. Logo chegará um dia que minha mente trabalhará tão rápido que um ano para você parecerá uma hora para mim, de forma que só irei assemelhar o que de fato é essencial, ignorando toda a informação restante.

 

Eu sei que é difícil compreender, é como falar da infinitude do universo, mas certas coisas realmente vão além da compreensão humana. Eu acredito hoje que a mente humana não foi feita para alcançar níveis de compreensão avançados – talvez tenha sido por isso que surgiu o projeto MITHO. Ainda assim, talvez possa lhe dar um exemplo que ajudaria você a, pelo menos, ter uma leve noção.

 

Veja bem, não sei sua idade, nem seria indelicada a ponto de perguntar, mas lembra-se de sua infância? Quando tinha dez anos, por exemplo... Lembra-se de verões extensos, de quanto esperava até o natal ou pelo seu aniversário, ansioso por presentes, que sempre pareciam levar uma eternidade até chegar? Agora pense em hoje em dia, você olha para o calendário e se dá conta que, de repente, já está em outubro, mas ainda assim lembra-se do réveillon que parece ter sido ontem? Lamento dizer, mas a cada ano que passa, os anos lhe parecerão mais curtos e mais rápidos. E por quê? Bom, quando você tinha dez anos, um ano era dez porcento de sua vida total. Era realmente muito tempo comparado ao que você já tinha vivido. Agora, quando estiver com cinquenta... Oitenta? Ou alguém que vive para sempre... O que é um ano para quem já viveu cinquenta? Dois porcento? E de oitenta? E de três mil? Consegue, pelo menos, seguir por essa linha de raciocínio?

 

A mente é como um computador, por assim dizer. A mente de um mortal vai atrofiando com a idade, esquecem-se as coisas, torna-se mais lenta, perde a velocidade de raciocínio... Alguns chegam ao ponto de perder a noção e a sanidade, tornando-se senis ou incapazes. Isso, porque como qualquer “computador” ou “máquina”, a mente se deteriora, há um limite de armazenamento. Já a minha, para poder durar eternamente, está sempre se “limpando” de dados inúteis, e chega até mesmo a não processar outras informações “irrelevantes”, para manter-se sempre funcional. Eu não esqueço de pessoas ou nomes, embora eu nunca me recorde de aparências ou aspectos físicos, essa pessoa fica “registrada” em meu banco de dados. Não processo, ou melhor, não enxergo cores. Armazeno informações relevantes e informações importantes, mas nunca uma piada ou um comentário sutil, por exemplo.

 

Sabe, houveram diversos experimentos no projeto MITHO: cura para doenças, imunidade a vírus e bactérias, e até mesmo correção de DNA em fetos ainda em gestação, eliminando enfermidades inclusive hereditárias. Claro, depois houveram os projetos militares, mas isso não vem ao caso, o que realmente vem ao caso é que dentre todos esses nobres projetos que citei, acredita que o meu foi o mais rentável? Logicamente esses projetos que citei foram popularizados, enquanto os militares e os outros ficaram ocultos pelo governo.

Mas o meu projeto, o P24, foi um sucesso. Centenas de artistas, cantores, políticos, todos pagando verdadeiras fortunas para tornarem-se “imortais”. No século 28, até onde o meu amado Doutor pesquisou, mais de sete mil figuras influentes tornaram-se “imortais”. Inclusive os líderes da JON tornaram-se “imortais”, autointitulados “A Sociedade dos Eternos”. Seria cômico se não fosse trágico.

 

Eu não tive escolha, eu fui uma cobaia, mas esses que se tornaram voluntariamente, saiba que nos séculos seguintes, surgiram organizações “criminosas” cobrando um valor ainda maior para “destruir” os “imortais” que assim desejassem. Assim surgiu a maior taxa de suicídios dos sete séculos anteriores àquele, e noventa e oito porcento desse número eram dos “imortais”. Simplesmente porque eles se deram conta da tortura que realmente é essa suposta “imortalidade”.

A ideia da morte sempre assustou a humanidade. Mas os homens não são capazes de compreender o ciclo da vida e desafiar algo incompreensível é um erro. A mortalidade é o que vos torna únicos. Tentarei justificar minha afirmação em seguida, apenas preciso falar o porquê desses suicídios dos “imortais”.

 

Eu conheço profundamente o tal motivo. Já lhe falei inicialmente. Mas, sabe, como meus companheiros de aventuras devem ter lhe contado, eu voava como um foguete por mares e ilhas. E um dia passei por uma ilha intocada pelo homem há milênios, onde havia um campo de rosas, cobrindo como um vivo carpete uma planície inteira. Você deve imaginar que lindo deveria ter sido, não é? Eu também, mas imaginei enquanto ainda estava lá. Sabe o que eu imaginei? Quais seriam suas cores. Como seria o seu perfume delas, também como seria a sensação de tocá-las e sentir a suavidade das pétalas em minhas mãos... Mas não, eu não vejo cores e não tenho os outros sentidos. Eu não tenho olfato, tato, paladar – afinal, eu não me alimento -, e embora pareça que olho para você, é meu disco que capta imagens e sons, e projeta minha voz.

 

Eu voava como um pássaro, mas não era capaz de sentir a brisa do vento em meu rosto. Sentir o frio do vento ou mesmo o calor dos raios de sol da manhã. Eu vejo as pessoas comendo, e penso que nem ao menos lembro como é o sabor de uma fruta. Ou mesmo como é saciar a sede com um simples gole d’agua. Coisas tão simples, que fazem com que os “imortais” prefiram abandonar a existência. E os mortais nem sequer as valorizam.

Honestamente, espero não o entristecer com isso, mas eu não acabo com minha existência porque sei que o Doutor se mantém vivo por minha causa, e trabalha há quase 50 anos mortais uma maneira de me tirar dessa condição. Embora no fundo do meu ser, eu sei que cedo ou tarde o Doutor também seguirá o curso natural da vida, encerrando sua existência assim como todos mortais. É mais um fato do qual os “imortais” não se deram conta: todos que amavam e conheciam iriam “partir” enquanto eles permaneceriam para sempre nessa condição. E o Doutor é o único motivo que me prende nesse mundo, embora tenha de confessar que eu não sei e não tenho como me destruir, infelizmente.

 

Mas para encerrar nossa conversa, deixe-me voltar ao que lhe falei, como prometido: a importância da mortalidade. Os imortais acabam não se preocupando com o tempo, pois afinal tem a eternidade pela frente, e por isso acabam sempre deixando “para amanhã”, “deixando para depois...” E levam séculos ou mesmo milênios para fazer algo relevante. A ideia de imortalidade é ter todo tempo do mundo para deixar sua marca, mas se você tem todo o tempo do mundo, por que começar agora? Até perceberem o quão infeliz e miserável é sua existência sem propósito, sem o vigor da vida... E acabam encerrando suas existências, muitas vezes sem cumprir nada.

 

Agora, os mortais estão cientes do seu tempo limitado, cientes de sua morte inevitável. Então se preocupam em viver ao máximo (e podem): amar, sorrir, chorar, preocupam-se em deixar um legado, filhos, seus ensinamentos; eles se arriscam, se aventuram, diferente dos “imortais” que tem toda a eternidade e acabam nunca vivendo de verdade.

Os mortais se divertem, brincam, sorriem, mesmo em um lazer com os amigos ou a pessoa amada, cada momento é valorizado e vivido. Produzem obras incríveis, que duram por gerações... Esculturas, pinturas, desenhos, músicas...

 

Justamente pelo fato de saber que seu tempo é limitado, os mortais vivem intensamente. E é por isso que os invejo. Porque mortais são capazes de fazer coisas incríveis e serem incríveis.

 

Assim como você.

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)