CONTO II – 

Onde está o poder?

 

 

 

 

 

Então, jovem? Essa última história lhe fez pensar ou mesmo refletir a respeito, não é mesmo? Bom, de qualquer forma, espero que sim. Mas imagino que se continua aqui é porque gostou de conversar com esse velho, não é?

 

Talvez você possa achar nossas histórias entediantes, afinal, parece ser sempre a mesma coisa, certo? Nós explorando ilhas, derrubando Mithos tiranos, libertando cidades de seus opressores. E era exatamente o que fazíamos: caçar e matar os Mithos que usavam e usam suas habilidades de maneira errada. O que lhe falei na última história, o Chacina, que o Sr. Águia derrotou em conjunto com o Sr. Granada, o Armada, a Matilha... E até o nosso atual nêmesis que você conhece bem. Em suma, acaba sendo sempre a mesma coisa, sempre um novo desafio, pouco diferente dos outros em contexto. Vencer um Mitho que está tirando proveito e/ou explorando cidadãos indefesos.

 

Garanto-lhe que não é só isso, porém, as outras histórias seriam ainda mais chatas. De quando paramos em ruínas antigas procurando peças tecnológicas para o Doutor, ou mesmo suprimentos, água, comida... Ou quando paramos em cidades comuns, ajudando a construir abrigos melhores ou até poços para os cidadãos. Também topamos com bestas mutantes selvagens, e várias criaturas que se tornaram aberrações pelas mudanças no mundo, pobres seres irracionais, mas que precisam ser abatidos pelo perigo que oferecem... Ou mesmo das vezes que passamos meses navegando sem encontrar terra. Então por mais que nosso inimigo comum seja tedioso, posso garantir que as outras partes de nossa jornada são menos glamurosas ainda. O Sr. Granada urinando pra fora do barco, contra o vento, banhando-nos com respingos. Extremamente desagradável, garanto-lhe. Sr. Belker desesperado por precisar, segundo as palavras dele, e me desculpo profundamente por ter que fazer-lhe ouvir isso, “soltar um barro”, enquanto o Doutor procurava urgentemente uma pequena ilha, pois os Srs. Granada e Leeroy o impediam de usar o pequeno banheiro que havia no barco. Então, sim, preciso poupar-lhe disso e ficar repetindo histórias de cidades que ajudamos ou Mithos que vencemos, pois ainda que sejam entediantes, não são tão vergonhosas como o que tínhamos que passar em outras situações.

 

E se pararmos pra pensar, ponderando um pouco, há de se convir que os Mithos são e sempre serão a maior ameaça aqui. Veja bem, num mundo ausente de tecnologia, com a civilização se reestruturando, utilizando animais como meios de transporte, iniciando seus cultivos... Mithos podem reinar soberanos. Que homem com uma espada comum e toda fragilidade humana poderia enfrentar um homem com corpo de aço, braços de ferro, ou mesmo uma “supervisão” como a minha? Sabe, eu poderia colocar uma bala em sua pupila a mais de 5 km de distância de você, e perdoe o trocadilho, mas você “nem veria” o que lhe atingiu. E infelizmente, a grande maioria utiliza suas habilidades para seu próprio benefício, de maneira egoísta, ou ainda pior, pela “diversão da crueldade”. Perdão por fazer esse gesto de aspas com os dedos. O Sr. Granada tinha pavor desse meu hábito. Mas realmente não consigo entender como a crueldade poderia ser divertida. Se permite dizer, acho que poderá pensar em como o poder corrompe. Desde os tempos ancestrais, até homens bons foram corrompidos pela política e o dinheiro que ela proporcionava, coisa que na época traziam “poder”. Por mais que as intenções sejam boas, o poder acaba falando mais alto e deturpando o indivíduo.

 

Você já me conhece um pouco, sabe de minha fé. Saiba que eu não questiono os atos divinos, embora muitos possam pensar, e muito já ouvi dizerem: “Deus dá asas para quem não sabe voar”.  Mas eu realmente não sei se é o ambiente que deforma um caráter, se são as oportunidades, ou mesmo uma questão de índole natural. Prefiro me manter resoluto quanto a minha fé e acreditar que nascemos puros e livres de pecados. Depois que crescemos, somos livres para nossas próprias escolhas. Eu lhe pergunto, para que me responda com toda sinceridade: se você fosse um Mitho invulnerável, superforte, como o Sr. Belker, por exemplo, e acordasse nesse tempo, sem família, amigos, sem casa, com fome, sede, sem ter para onde ir ou mesmo um propósito, e se deparasse com uma cidade, cuja as pessoas lhe oferecessem tanta ameaça quanto um cupim. Você iria trabalhar, suado, plantando, colhendo e vivendo como um cidadão comum? Sendo que você poderia simplesmente pegar o que quisesse e quando quisesse? Sentar em um trono e simplesmente ordenar que fizessem tudo, com a consciência de que ninguém iria se opor por medo, por saber que você poderia esmagá-los com suas próprias mãos, ainda que não o fizesse? Pense bem. Seja sincero. Iria tomar o caminho mais estreito e difícil, como nós? Ou, elevando ainda mais a dificuldade da escolha, pense em uma cidade mais próspera, grande e rica, com um castelo luxuoso governado por um líder humano, do qual você poderia simplesmente tomar o trono e ter uma vida de fartura e luxo como um rei? É mesmo capaz de afirmar que não há nenhuma dúvida em seu coração? O Sr. Granada sempre disse que “todo homem tem seu preço”. Eu sempre me recusei a acreditar nisso, até infelizmente um dos nossos nos trair. Quem e por que não vem ao caso, acho muito mais valioso salientar o fato da decisão que o estimado Sr. Garra tomou, dando sua vida como sacrifício para salvar os seus amigos e a cidade. Lamento muito não ter estado presente para prestar uma última homenagem a ele. Ou o Sr. Marklar, uma verdadeira máquina de combate, dotado de um poder incomparável, ainda assim um homem justo, sério e honrado. Ele tem ciência de que se ele quisesse, é provável que venceria nosso grupo inteiro, e poderia impor sua vontade sobre praticamente todos a sua volta. E mesmo assim, nos dias de hoje, ele criou uma cidade, na qual lidera com benevolência e justiça, em harmonia com humanos, protegendo-os e abrigando Mithos que querem viver uma vida pacífica e normal.

 

Sabe, com tudo isso que lhe falei, resta apenas eu lhe explicar a minha conclusão disso tudo.

Não é a visão aprimorada, a musculatura invulnerável, o corpo biônico ou algo semelhante, o maior poder. Mas sim ter decência, humildade e integridade para não se corromper e perder os valores mediante às habilidades que possui.

 

Esse sim é o homem poderoso de verdade.

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)