No Futuro, o Natal foi esquecido por milênios. Mas não por todos.

Conheça esse pequeno conto do verdadeiro significado dessa noite mágica!

               

                 Sabe, eu sempre li sobre Natal. E como possuo memória eidética, nunca esqueci de nada, do mais relevante ao mais minucioso detalhe. Eu lembro que logo que fui criado, quando ainda possuía mente infantil e comecei a ler e entender as coisas, meu “pai” celebrou comigo um Natal. Até ganhei um livro só pra mim.

                Mas depois, meu “pai” conseguiu criar vida “de verdade” e eu me tornei apenas um “brinquedo de natal velho”, cuja criança havia perdido o interesse. Nas palavras dele, ele me deixou viver no castelo porque eu não valeria nem o tempo de ser destruído. O tempo dele era precioso demais para isso: sempre trabalhando, construindo algo; eu fiquei abandonado, e acabei fugindo para os livros, onde eu encontrava conforto.

                Por mil duzentos e trinta e um anos eu fiquei sozinho na gigantesca biblioteca, lendo dezenas de vezes os mesmos milhares de livros. Mas sempre, sem nunca perder a contagem dos dias ou horas, quando chegava a noite de Natal, eu olhava as estrelas através da água salgada que marejava meus olhos, enquanto desejava que o Papai Noel realizasse meu pedido de Natal. Mas nunca aconteceu. Talvez porque eu não tinha sido bom o suficiente ou porque eu não sou uma pessoa de verdade, eu costumava pensar. No último Natal, eu tive certeza de ter visto o trenó dele, mas o Lord riu de mim e disse que eu devo ter visto apenas um meteorito que chamam de “estrela cadente”.

                Então, há alguns meses eu finalmente saí do castelo e fiz amigos de verdade. O povo do nosso tempo não sabe o que é Natal, apenas os Mithos, pois eles “vieram” do passado, onde a festa era muito celebrada. Empolgado, eu convidei todos para festejarmos juntos. Fui falar com todos os meus amigos Mithos. Simon se desculpou, mas disse que no atual clima de guerra, precisa dar atenção à nossa segurança. O Padre sorriu e disse que era uma linda atitude, mas que atualmente não conseguiríamos fazer as pessoas entenderem ou fazer com que os Mithos se importassem. Natalie debochou e mandou-me para um lugar que não sei onde é. Morgane ficou muito empolgada e me contou que as poucas coisas que ela se lembra de antes de se tornar um Mitho eram dos natais em sua infância: a árvore iluminada, os presentes embaixo, o banquete... Mas embora ela tenha me falado tanta coisa bonita, ela concluiu lamentado nunca mais poder ter isso, me deixando crer que também não tinha interesse em participar. O Águia disse que não conhecia o Natal, pois não era tradição em sua tribo. E, eventualmente, entendi que ele não queria saber, pois se desculpou e disse que tinha coisas importante a fazer no meio da minha explicação, apenas duas horas e trinta e sete minutos depois que comecei a explicar. O Doutor disse que se eu conseguisse fazer algo trivial como isso, seria bom para aliviar a tensão dos homens. Mas também não disse que me ajudaria.

                Por fim, resolvi reunir todos os cidadãos e explicar. Os poucos que ficaram até o final da minha explicação pareceram querer fazer um banquete só pela festa e bebida, mas não entendiam que essa festa era uma celebração em prol da vida e amor ao próximo. Essa data é para passar uma mensagem de paz e alegria, e não só festa, presentes e comilança. Os presentes são apenas um símbolo, uma forma de demonstrar a importância dos outros nas nossas vidas.

                Então eu desisti. Pensei em pedir ao Papai Noel que trouxesse alegria e paz de presente para cada uma das pessoas da cidade, Mitho ou humano, independente de se importarem ou não, mas lembrei que ele não realiza pedidos de um “robô”, como muitos me chamam.

             Mesmo assim, resolvi fazer presentes para cada um dos Mithos e cidadãos. Costurei mais de setenta pares de sandálias para os homens e mais ou menos a mesma quantidade de cachecóis para as mulheres. Entalhei mais de trinta animais de madeira para as crianças. E tudo no tempo livre, escondido.

                Para os Mithos, que são meus amigos mais próximos, fiz presentes especiais para cada um: passei horas procurando pérolas para fazer um colar para Morgane, fiz uma bandana bordada para Natalie, um óculos de proteção para que o Bobby não tenha nenhum inseto atingindo seus olhos quando ele corre... Enfim, para o Simon, Águia e todos os outros. E quando todos foram dormir, na noite do dia vinte e quatro, coloquei em suas cabanas ou quartos cada um dos quase duzentos presentes e fui para o meu quarto, olhei as estrelas como sempre, fiz um pedido para o Papai Noel como costumava fazer por mais de um milênio e fui dormir esgotado.

                Na manhã seguinte bateram na porta de meu quarto às onze da manhã. Era o Padre me chamando para ir até o centro da cidade. Para minha surpresa, havia um enorme banquete, e decoraram com conchas pintadas, plumas e bolas coloridas a grande árvore do centro. Todos estavam lá, TODOS. Alguns até emocionados. Eu pude sentir a paz e a serenidade que havia no ambiente. Todos vieram me abraçar e dizer o quanto eu era importante para a família. FAMÍLIA.

                A partir deste Natal, as pessoas entenderam o espírito do Natal, o ato de se doar, de ser o melhor que se pode ser, não só uma vez por ano, mas que esse espírito, que essa atitude seja algo constante, como se todo dia fosse Natal. Essa data não é para que sejamos pessoas melhores somente nesse dia, mas para nos lembrar disso, e sejamos melhores sempre. Caridosos, dedicados, amáveis, todos os dias!

                Espero que você tenha um feliz Natal também, e que se deixe contagiar por esse espírito, não importa se você é um humano, Mitho, Tecno Androide, ou se não acredita, tem outras crenças, religião ou filosofia, tudo bem, não precisa festejar, apenas deixe essa energia contagiar você, e compartilhe paz, amor e alegria. Afinal, não importa quem somos ou de onde viemos, todos queremos isso.

                E quer saber de um segredo? Eu estava errado. O Papai Noel realiza pedidos de androides também. Foi exatamente isso que pedi de presente pra mim. Uma família.

 

Att. Mack

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)