CONTO III –

Diga à Rosie que me importo!

              

                   Elementar, não é mesmo, visitante? Posso ver seu olhar. Nosso estimado Granada Negra era uma caixinha de surpresas. Meu último relato é um tanto intrigante. Foi precisamente quatorze dias, oito horas e vinte e um minutos após o relato anterior do Sr. LeeRoy. Como ele havia sugerido, o Sr. Granada realmente tornou-se mais imprudente. Não apenas parecia não temer a morte, mas também a almeja-la. Sozinho ele foi atrás da Matilha, utilizando do mesmo elaborado plano que utilizou para exterminar o Ômega. No mesmo local já citado, ele preparou a meia esfera de combustível intensificado, porém, colocou o que ele mesmo definiu como “uma penca” de explosivos no centro e esperou no alto de uma árvore com detonador remoto.

               

               Porém, na espreita, viu que apenas três caíram em sua armadilha, dois dos quais foram pulverizados, enquanto o terceiro correu um pouco mais e acabou sobrevivendo à explosão, embora até hoje sua pelagem seja falha, ele tem se mostrado o mais “inteligente” dos animais, o intitulado “Alpha”.

             A explosão, embora não tenha abatido esse animal, com sua onda de impacto, foi forte o suficiente para derrubar o Sr. Granada da árvore, que embora tenha saído ileso, alegou achar graça do que ele define por “destino”.

Mas bem, vamos ao último relato do Sr. LeeRoy, que chegou chamuscado, com lágrimas nos olhos, abalado e perturbado:

“ – DOUTOR!! O GRANADA... O Granada... Morreu... – Disse o Sr. LeeRoy em meio a prantos, de uma maneira murmurada, quase indecifrável. Depois de acalma-lo, ele começou a contar:

            ‘Nós estávamos fazendo uma ronda do outro lado da cidade, explorando rastros que iam numa direção que nunca havíamos ido antes. No lado oeste da ilha, acabamos encontrando em enorme navio ancorado, encalhado, na verdade. Segundo o Granada, pelos rastros, estava sendo usado como uma base secreta pelo filho da mãe lá. Inclusive havia pegadas que o Granada disse serem do Belker. Resolvemos voltar para avisar o senhor, Doutor. Mas quando estávamos voltando, topamos com o Belker. Eu já estava ‘por aqui’ com aquele cretino traidor e já avancei para acabar com ele, mas o Granada colocou a mão no meu peito e disse:

– Não, Lee. Por favor. Deixa ele pra mim. – Eu fiquei meio preocupado, porque o Granada é um estrategista, um gênio como o senhor Doutor, não um combatente. 

 

              O Granada sacou duas facas bem curtas, com uns dez centímetros de lâmina, e correu na direção daquela enorme muralha chamada Belker, carregando aquele machado que pesava mais que o próprio Granada. O Belker sorriu quando viu o Granada indo e eu ficando parado. Me ferveu o sangue ver o riso daquele nojento de dentes sujos.

Quando Granada se aproximou, Belker girou o machado, desferindo um golpe na horizontal e fazendo o granada saltar de frente, dando uma cambalhota no ar, caindo atrás do Belker. O Belker se virou, desferindo o mesmo ataque, mas desta vez, o Granada que não estava em movimento, apenas se impulsionou e rolou entre as pernas do Belker, ficando nas costas dele de novo. Logo depois, ele tentou um golpe vertical, tentando cortar o Granada ao meio, que se esquivou pra lateral e já se impulsionou pulando pra trás do Belker. Mas sem desferir nenhum golpe. E isso ficou se repetindo por quase dez minutos. O Belker já ofendia e debochava do Granada, chamando de inseto, perguntando se isso era tudo que ele sabia fazer. De inicio até pensei que ele estive tentando cansar o Belker, mas nós três sabíamos que o Belker era incansável, e o Granada era esperto demais para um plano desse.

               

                 Foi quando o Granada finalmente respondeu:

                 – Você nunca foi atento não é, Belker? Nem esperto também. E no escuro ainda... Está SE olhando bem?

Foi quando eu, que também não havia percebido, finalmente vi. A cada passada que o Granada dava indo pras costas do Belker, indo e vindo, ele ia jogando pequenas granadas adesivas do tamanho de bolinhas de ping-pong, mas achatadas. Quase uma dezena delas estavam grudadas nas costas, nas pernas e até no machado do Belker. Ele engoliu em seco e empalideceu. E eu ri da expressão dele com satisfação. Então o Granada apertou o detonador. Foi uma pequena explosão de impacto, eu estranhei. Aquilo não mataria o Belker. Que disse o mesmo.

            – Hah! Acha que vai me matar com essa porcariazinha?  – Sarcástico como sempre. Mas a ‘porcariazinha’ arremessou o machado pra longe e derrubou o Belker de quatro. Então o Granada parou na frente dele e sacou uma pistola, dizendo e fazendo ele gelar:

               – Essa arma eu desenvolvi há algum tempo. Ela só tem um uso, e se destrói, porque a bala de Trillium que criei destrói o cano e a câmara da arma. Mas ela perfura QUALQUER coisa. Estava guardando pro teu ‘chefe’. Mas parece que vai ser tua.” – Com a arma apontada pra testa do Belker, que era burro, mas conhecia o Granada, assim como eu, tempo suficiente pra saber das engenhocas dele, e que não tinha nada de blefe. Foi aí que veio a surpresa:

           – Por favor! NÃO ME MATA! Em nome da nossa amizade! Eu imploro, por favor, não me mata!!!! – Implorava o ‘grandioso Belker’, de joelhos, juntando as mãos, em prantos, como uma garotinha desesperada. Eu gargalhei. Confesso que sentia raiva daquele traidor. Gritei para que o granada puxasse o gatilho. Mas ele disse:

           – Tu não é meu amigo Belker. E não tem nem sequer dignidade. Sabe... Eu sei que tu não hesitaria um segundo para me matar. Mas eu não sou que nem tu. Te manda, Belker. Some daqui. – Ao dizer isso o Granada guardou a arma e veio na minha direção. Eu não entendi por que ele não acabou com o Belker ali mesmo quando teve a oportunidade. Mas também nunca perguntei. Ele me disse:

        – Vamos, LeeRoy. Precisamos descobrir o que há nesse navio agora, e rápido. O Belker vai voltar com a matilha ou coisa pior, e pela manhã isso aqui estará lotado de proteção. – Então correu em direção ao navio e eu o segui.

 

             Por fora era um navio de metal, aparentemente um antigo navio de guerra, mas por dentro ele havia sido reformado, era todo tecnológico. Apenas nos olhamos, não era preciso dizer a quem aquilo pertencia e quem era autor daquela obra.

Matamos alguns guardas e alguns clones cientistas, e após andar por vários corredores e passar por algumas salas, no final de um longo corredor que vinha reto da porta de entrada, vimos a cena que arrepiou os pelos da minha armadura metálica.

 

              Era uma sala gigantesca cheia de incubadoras com mais de trinta ‘cachorros’ sendo criados. O cretino estava criando mais uns trinta desses lobisomens infernais da Matilha. Quando aquilo ficasse pronto seria o nosso fim. Haviam seis ‘Cães’ e já eram nosso terror, agora imagina aquele exército. Nossos dias estariam contados.

        – Rápido LeeRoy, me ajude a plantar alguns explosivos. Não tenho muitos, mas acho que tenho pra destruir algumas incubadoras! – Disse o Granada, mas é óbvio que eu não entendia nada, apenas fazia o que ele ia me explicando.

Estávamos perto da porta de entrada da sala que dava pro corredor. Eu estava de costas pra porta quando vi o Granada, sempre atento a tudo, olhar por cima do meu ombro. Olhei pra trás. Lá estava o Belker, sorrindo, aquele cretino, com um controle na mão. Foi tudo muito rápido. Eu só vi o Granada pegar uma daquelas granadas de impacto e arremessar no meio peito, me jogando pra fora da sala no exato minuto que Belker apertou o botão, fazendo uma porta enorme de aço maciço descer do teto e prendendo o Granada dentro do salão de incubadoras.

           Quando me viu, o covarde do Belker correu em direção a saída do navio. Tentei correr atrás dele, mas não podia deixar meu amigo preso ali. A porta tinha uma pequena janelinha de vidro, menor que minha cabeça. Olhei para dentro e vi o Granada com um ar tranquilo se aproximando da porta. Falei pra ele pelo vidro:

           – Não se preocupe! Vou te tirar daí! – Mas eu estava errado. Nem toda minha força seria suficiente pra mover aquela porta. Tentei socar, empurrar, erguer, nada. Impossível. Então quebrei o vidro e falei pra ele:

              – Se esconda, vou na base buscar ajuda! – Ele me chamou e eu fui tentar sair, mas ele insistiu, me chamado até ser incisivo:

              – LeeRoy... espere. LeeRoy... LEE! – Então parei e voltei. – Me escute. – Eu já imaginei o que ele iria dizer.

           – Não, Granada, não direi nada à Rosie! Tu sabe que não tem explosivo suficiente. – Foi então que ele sorriu, e tirou o casaco revelando o colete ‘encerra-vidas’.

              – Lee... Vou mandar esse navio inteiro pelos ares.

 

                   – NÃO! NÃO FAÇA ISSO! A GENTE VAI DAR UM JEITO! – Eu disse já nervoso.

               – É sério, me escute. Tu sabe que logo vai lotar de “super-guardas-mutantes”, cães, o Belker e toda tropa daquele monstro aqui.  É agora ou nunca. Eu estou vendo essa estrutura. Ele levou décadas para construir, e tentou manter escondido do Doutor e do resto de nós. Se eu não agir agora, vamos perder a única oportunidade. Não posso deixar ele criar esse exército de cães.”

                 – Não cara... O que vai ser de mim sem ti? –  Eu perguntei.

              – Lembra da nossa conversa? Sobre as coisas ruins que fiz no passado? Deixa eu me redimir. E se o Padre estiver certo, onde quer que ele esteja, essa é a hora de pagar pelos meus pecados e ter uma morte honrada. – Ele disse, tranquilo, sem fazer piadas.

                 – Mas Granada... – Eu já engolia o choro.

              – Escute LeeRoy. Com o Padre longe e todas as perdas que sofremos, proteja o Doutor e o Águia, e todos os cidadãos. Tu é o bichão. Tu sempre foi o melhor! Eu te amo cara. Tu é um irmão pra mim, nunca se esqueça disso. Peça para alguém visitar o Marklar e avisar que não poderei mais visita-lo. E diga à Rosie que eu me importo. He! Agora corre! SE MANDA! SÉRIO! TU NÃO FAZ IDEIA DA POTÊNCIA DESSE COLETE! CORRE O MÁXIMO QUE PUDER! VOU CONTAR CINCO MINUTOS QUE SEI QUE FICARÁ BEM! Te cuida, irmão!

Eu não consegui falar nada... Só concordei com a cabeça, segurando o choro, e virei pra começar a correr. Foi quando ele me chamou pela última vez.

                – LEE! Mais uma coisa... – Apenas fiquei olhando esperando.

               – Tira esse bigode. Fica ridículo com esse penteado afro. – Eu sorri enquanto me debulhava em lágrimas e corri. Saí do navio e já adentrava a mata quando a noite virou dia. Uma explosão abriu uma cratera no chão da praia e nem restos do navio sobrou, apenas destroços caindo pra todo lado. Eu caí sentado com a força da explosão, coberto por uma nuvem de fumaça.

Então voltei pra base.

              E foi assim que perdi meu melhor amigo. Que pensava que deveria pagar pelos crimes do passado, mas viveu o presente sempre dando seu melhor, e dando sua vida. Para que nós vivêssemos. ”

               

                E assim se encerra o relato do Sr. LeeRoy. A perda de nosso oponente foi grande, no entanto não se compara às nossas. Seis dias depois do ocorrido optamos por fazer um ataque direto.

            LeeRoy encontrou Belker. Não houve conversa alguma. LeeRoy destruiu os pulmões dele de imediato no primeiro soco desferido. Descontou toda raiva reprimida. Encerrou o espancamento apenas quando Belker havia se tornado apenas uma massa disforme em meio a restos de fluídos humanos, e foi contido pelos outros. Desconheço maiores detalhes, pois ninguém fala muito a respeito.

            Mas, na verdade, nosso oponente apenas usou Belker como isca. E nós a mordemos. A Matilha estava à espreita e LeeRoy acabou também se sacrificando, contendo a mesma para que o resto pudesse bater em retirada. Foi nesse dia que Natalie perdeu o braço e alguns outros ciclos vitais se encerraram também. Reitero, eu não estava presente, mas de acordo com os que sobreviveram, LeeRoy se foi com um semblante de paz, enquanto se sacrificava para que nossa tropa pudesse recuar em segurança.

Os cidadãos festejaram a morte do cruel Belker, assim como festejaram a do Armada e a explosão do navio... Enquanto nós lamentávamos a morte de LeeRoy, do Garra e do Granada Negra, respectivamente. Um memorial foi feito em homenagem a eles e todos outros que se foram.

               Pondero se é disso que o ciclo da vida se trata agora... Alguns devem morrer, para que outros possam desfrutar de outro dia?

Meu QI ultrapassa duzentos e cinquenta e todos me veem como um ser que de tudo sabe. Talvez estejam certos, e seja por isso que eu nunca hei de compreender como o mundo funciona. Porém, você almejava saber, e agora sabe, o que vivemos e tudo o que se sucedeu para culminar neste ponto que estamos com a chegada de Simon.

              Como disse... as pessoas e o mundo ainda parecem-me um mistério.

              O Sr. Marklar, sempre que nos visita, desenha um bigode grosseiro por cima do retrato do Sr. Granada, no memorial, enquanto sorri com lágrimas nos olhos, e afirma que eu não entenderia quando tento questioná-lo.

 

              O Sr. Águia se ajoelha por horas em frente ao memorial, para que suas almas, agora parte da natureza, tenham prosperidade.

 

           A jovem Natalie apenas fuma um cigarro, e acende um charuto, que ela coloca em frente aos retratos de Granada e LeeRoy, respectivamente. Embora, lamentavelmente, eles não possam compartilhar deste ato com ela.

            E o Padre... É o que, de fato, me deixa mais meândrico. Ele apenas sorri em frente ao mural, dizendo lembrar-se de todas as coisas incríveis que vivemos. E pede que esperem por ele...?

               E ele diz que... com certeza... o paraíso está muito mais divertido agora.

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)