CONTO I – 

"Uma Construção de Caráter"

 

 

 

 

 

Sejas bem-vindo à minha ilha, humano. Soube que tu és um pesquisador, não é mesmo? Que estiveste na cidade do Doutor, conversaste com o Águia, Maureen, o Padre, querendo saber mais sobre nós e nosso passado. Gosto disso. Para compreender o presente é preciso conhecer o passado, creio eu.

Enfim, honra-me que queiras ouvir minhas histórias também, e sinta-te honrado, não costumo permitir estranhos em minha ilha. No teu caso até poderias oferecer-te um tour, mostrando-lhe as instalações, mas soube que queres saber sobre o nosso tempo de aventureiros, sobre os eventos que antecedem à atualidade, então talvez seja melhor irmos direto a isso.

 

Acho que grande parte das histórias que poderiam entreter-te meus antigos companheiros já devem ter lhe contado, todavia, com certeza tenho algumas que ficaram em segredo entre mim e alguns dos meus antigos companheiros. Como por exemplo, quando resolvi abandonar a guerra em que estávamos, Leeroy e Granada vieram temporariamente comigo para a ilha. Afinal, eu precisava de mais Mithos com força física e de um gênio para criar e elaborar as construções e a cidade em si, e com o Doutor atrelado à sua própria cidade, o Granada foi o gênio que me sobrou. E saibas que é algo do qual nunca me perdoarei. Por mais que eu não quisesse mais lutas, não deveria tê-los trazido. Se os dois estivessem lá, teriam dado conta do Armada. Sempre pensei que o Doutor, o Águia e o Garra conseguiriam ocultar-se dele até Leeroy e Granada voltarem, mas não. E isso custou a vida do Garra. Embora ele tenha morrido como um herói, o lendário Mitho tier 5 que derrotou o invulnerável Armada, tier 7, preferia ter meu companheiro vivo do que uma lenda em um memorial.

 

Mas prosseguindo: o povo me superestima, tratam-me como um deus ou algo parecido... “Marklar, o Austero”, “Marklar, o Centauro Divino”, “Marklar, o Imponente”, são só alguns das centenas de títulos que os humanos aqui da ilha deram-me. Mas a verdade é que mesmo que eu seja um bom líder, e meu corpo uma poderosa máquina de batalha, sou tão humano quanto qualquer mortal: cheio de falhas, erros e problemas. Por muito tempo fui arrogante, pretencioso, e posso até dizer-te que me considerava melhor do que os demais. Mas a verdade inegável é que a vida é a melhor professora que há.

 

Hei de confessar-te o que pensava sobre meus companheiros na época: pelo Doutor, sempre tive muito respeito e apreço; Maureen, muita pena e compaixão, embora também tivesse muito apreço por ela; o Leeroy, para mim, sempre foi um fanfarrão, uma boa pessoa, mas difícil de levar a sério; o Águia, um bom companheiro, mas nunca tivemos maiores laços de amizade... O Belker, sempre considerei um aproveitador sem empatia alguma por nenhum de nós, só estava conosco pela segurança e comida, e, claro, pela violência cujo o mesmo adorava – e eu estava certo. Quanto ao Garra, pensava o mesmo, mas nesse caso, julguei errado, para meu eterno arrependimento. Mas a pessoa que quero dar destaque é o Granada. “Malandro safado”, eram adjetivos de consenso entre todos quando se tratava dele. Sempre tive um pé atrás com ele. Sim, ele era genial e criava coisas incríveis, mas a maioria delas eram armas. Adorava explodir coisas, adorava batalhar e matar nossos inimigos. Ele nunca havia ferido ou ameaçado inocentes, mas sempre acreditei que era apenas uma questão de tempo. Ele era um piromaníaco pirado, uma bomba relógio.

 

Então, naqueles dias, como estava dizendo, trouxe Leeroy e ele para ajudarem-me a montar a cidade. És capaz de conceber que em uma tarde ele desenhou as plantas? Um projeto incrível. Algo que me deixou deslumbrado. Todas cabanas nas copas das árvores com pontes entre elas, escadas retráteis para que pudessem ser recolhidas e evitar que alguém subisse em caso de ataque, luz elétrica alimentada por uma pequena hidrelétrica que ele projetou num lago próximo e até um sistema de encanamento d’água usando canos de bambu, que levava a água até as cabanas mais distantes.

 

Devo admitir que era muito mais que eu sequer poderia imaginar. Naquela altura já tínhamos em torno de sessenta humanos para ajudar-nos, humanos estes que praticamente veneravam-me e queriam viver sob minha proteção. E além de Leeroy e Granada, contávamos também com um outro Mitho, chamado Gigante, um “humano” de dois metros e meio de altura e quatro braços. Eu havia o conhecido há pouco tempo, mas sabia que ele era um pacifista e que queria reclusão por ser repudiado pelos humanos por sua aparência bestial... Pensando bem, nunca soube que tipo de Mitho ele era, em nossas andanças nunca havíamos visto um ser como ele. Ele tivera um grupo também que em breve viria para a ilha, e sob minha influência os humanos iriam respeitar a todos, indiferente de sua aparência. Foram essas as regras que estipulei: eu lideraria, todos teriam igualdade e ocupações, Mithos ou não. E nada de armas sem minha autorização, nem maus hábitos. Ou seja, Leeroy não poderia fumar seus charutos no tempo que ele estivesse aqui. Muita fumaça, fedida, além de não fazer bem em aspecto algum, e ele relutantemente acabou concordando.

 

Nos dias que se seguiram, começamos a obra e suas atividades: cortar troncos, carregar pedras, abrir a clareira, tudo isso ficou à cargo de Leeroy, Gigante e eu. Granada liderava a obra, instruindo os humanos e nós conforme suas plantas. Foram dias de trabalho pesado, mas a construção andava mais depressa do que qualquer uma que havia visto. Quanto à água tínhamos em abundância, e à comida, havia um grupo de humanos para caçar e procurar frutas. Definimos que o alimento seria divido em duas porções para os Mithos e uma porção para os humanos, que ficaram de comum acordo, sendo que nós necessitávamos de mais alimento que humanos comuns. De fato, o Gigante precisarias de pelo menos seis porções para saciar sua fome, mas não havia alimento suficiente, então todos estávamos dispostos a sacrificar-nos nessa questão. Enquanto estávamos construindo, alguns humanos já iniciavam o plantio. Iriamos ter plantações também organizadas pelo Granada logo.

 

Eis que nas semanas seguintes a situação ficou estranha. Sempre sou muito observador e atento, e por isso notei mudanças no comportamento do Granada. Estava dormindo demais, sempre com um olhar meio estranho, indisposto. Comecei a ficar mais atento e pedi a alguns humanos dos quais tinha mais proximidade que ficassem de olho nele. No dia seguinte um deles informou-me que viu o Granada entregando dois pacotes a dois humanos discretamente em locais mais afastados das construções. Então fiquei com a pulga atrás da orelha e fui averiguar as redondezas. Foi num canto, mais afastado, próximo há um antigo tronco caído, já podre, que encontrei uma grande “colônia” de cogumelos. Peguei e comi um pequeno pedaço, meus sistemas biônicos expeliram imediatamente, me alertando que tratavam-se de cogumelos tóxicos, provavelmente alucinógenos, mas também potencialmente venenosos. Imaginei que pudessem ser a razão do comportamento estranho e distante do Granada e dessa espécie de “contrabando”. Não seria algo que eu duvidaria de alguém como ele. Porém, eu precisava verificar os humanos e ver a repercussão que isto estava causando. Passei a seguir de perto os homens, eu não poderia deixar isso ocorrendo, mas como meu senso de justiça manda, também não era capaz de acusar o Granada sem provas ou sem pegá-lo em flagrante.

Então fiquei de olho nele. Até que em determinado momento vi ele sinalizando com a cabeça para um humano, e logo os dois afastando-se dos demais. Óbvio que não consigo seguir ninguém furtivamente com meu tamanho e aparência. Então assisti de longe, e corri, pois ao correr poucos são mais rápidos que minhas quatro patas. Exatamente na hora que cheguei, Granada estava entregando um pacote a uns dos trabalhadores. Ordenei que o humano, pálido e estarrecido, que literalmente havia se urinado, abrisse o pacote para eu ver.

 

Era ração. A ração de comida do Granada. Fiquei confuso a princípio, mas logo os homens começaram a se reunir, então soube que fazia duas semanas que o Granada estava dando suas duas rações de comida para os homes que tinham fome. E que, por logo, ele não comia nada a praticamente duas semanas. Ele achou que era pouco alimento para os homens e ele, sendo magro, conseguiria se manter bem sem comida por um tempo, tentando ajudar sem contrariar minhas ordens ao mesmo tempo. Foi então que me curvei diante dele, em reverência, e todos os homens seguiram minha iniciativa. Aprendi uma lição de humildade, e a não julgar ninguém precipitadamente.

Me desculpei com ele e com os demais, e resolvemos dar mais prioridade para o alimento e menos pressa na obra. E esse foi um ensinamento que a vida me deu, um dos quais me tornaram quem sou hoje. Eu julguei mal aquele “pirado”. Sim, ele adorava armas, e explodir coisas... Mas daria a vida por nós se preciso.

 

Nenhuma aparência enganava mais que a daquele piromaníaco. Mesmo sendo muito atento com tudo, ele ocultava com facilidade a alma mais generosa e altruísta que já conheci. E eu não consegui ver.

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)