CONTO II – 

As escolhas fazem o homem

 

 

 

 

Bom, foi um prazer conversar com você, jovem. Mas receio ter apenas para mais uma última história, pois os fiéis me aguardam para a cerimônia de hoje.

 

Temo que acabarei atrasando, pois o que quero lhe contar talvez seja a mais longa das histórias, pois ela aborda todas as questões das anteriores. Fé, poder, corrupção e até confrontos.

Foi há quase vinte anos atrás, Maureen já tinha se perdido do grupo, e pode-se dizer que foi a partir desse momento que o desenrolar das coisas começaram a mudar, um declínio, na verdade. Foi uma escolha que fizemos que mudou todo o curso de nossas vidas, e resultou no afastamento e até perda de nossos estimados companheiros, como você bem sabe.

 

Estávamos navegando há tempos, em busca de novas ilhas ou continentes a serem explorados. Bom, você sabe, depois da grande guerra, a Terra se tornou nada mais que um grande arquipélago. Apenas ilhas e o que temos por continentes hoje não são maiores que os menores países da época dos tempos antigos. Claro, eu chutaria que a terra não foi explorada nem dez por cento. Os humanos costumam ficar em suas ilhas e não se atrevem a navegar para longe, com suas embarcações rústicas. Os exploradores são os Mithos. Mas com certeza deve haver algumas áreas grandes e até alguma cidades tecnológicas que ainda resistem, por aí, em algum lugar, esperando para serem encontradas.

Mas enfim, após tanto tempo navegando, encontramos uma das maiores, se não a maior ilha que já havíamos visto, cobrindo todo o horizonte. A excitação foi geral. Sr. Granada empolgado em encontrar sucatas para suas criações, Sr. Leeroy querendo esticar as pernas que segundo ele o ar marítmo atrofiava... Enfim, a comoção foi geral.  

 

Como sempre, atracamos na praia, o Doutor e eu ficamos junto com os Srs. Belker e Leeroy que armavam as redes de pesca, enquanto o Sr. Granada vaculhava as proximidades em busca de água potavel e frutas, e o Sr. Garra saia como uma sombra com toda sua graciosidade felina à noite para fazer o reconhecimento do local mais a fundo.

 

Foi pela manhã que ele voltou com a informações que atordoaram a todos. Havia uma enorme cidade, ainda que com casas simples, de barro e telhado de palha, havia um enorme castelo, e a cidade era toda cercada por muros, e possuia água encanada e até luz elétrica. Algo que nunca haviamos presenciado. Claro que muitos dos Srs. do grupo já queriam ir para lá imediatamente. Mas a voz da razão, provinda da lógica extraordinária do Doutor falou mais alto, e junto com a imponente liderança de Marklar, todos se conteram, afinal, precisávamos saber o que nos esperava lá, antes de simplesmente adentrarmos sem permissão. Afinal, provavelmente uma cidade desse calibre teria defensores, talvez até armamento e poderosos Mithos – e como eles encarariam a chegada de outros Mithos era uma dúvida gritante.

 

Como habitual, o Doutor bolou um plano: o Sr. Granada, dotado de sua lábia e “catimba”, como ele costumava dizer – que até hoje desconheço exatamente o significado de tal expressão, embora presumo estar relacionada à malandragem – iria desarmado aos portões da cidade. Sr. Marklar e Sr. Leeroy iriam pelas laterais, mais afastados, derrubando o muro se fosse preciso, Sr. Belker e o Doutor ficariam protegndo o Mecashark, e eu iria bem de longe, seguindo o Sr. Granada, com meu rifle, podendo ver tudo a quilometros de distancia e também ouvir o decorrer da conversa.

Em resumo não há porquê estender essa parte, havia guardas humanos, usando armaduras, que interrogaram o Sr. Granada. Ele logo foi apresentado ao Líder da cidade e explicou que éramos Mithos andarilhos, que ajudávamos as cidades onde passávamos. Fomos bem-vindos. Para nossa surpresa, o líder era um humano comum, muito simpático e receptivo, e adoraria ter nosso grupo em sua cidade. Ele já tinha um ou dois Mithos habitando e protegendo a cidade, e segundo ele, a cidade precisava de heróis, Mithos bons, para proteger os cidadãos e garantir a prosperidade da cidade nesse mundo selvagem.

 

E acredite ou não, ficamos amigos, e começamos a viver ali, ficando por anos. O Doutor teima que foram cinco, mas posso lhe garantir que não chegaram a dois. O Doutor tem uma percepção diferente de tempo, considerando que ele já tem muito mais de duzentos anos. Às vezes ele passa uma semana em seu laboratório e quando alguém se preocupa em checá-lo, ele sempre se desculpa por “ter passado o dia imerso em suas criações e pesquisas”. Não que ele esteja senil, mas justamente pela idade dele, não há como a noção de tempo não ser afetada.

 

Mas como disse, nos instalamos ali, e parecia que nossos dias de aventuras haviam chegado ao fim. Sr. Leeroy e Sr. Granada se mentiam a galanteadores com a mulheres, embora sem sucesso, e ainda se divertiam pois continuavam a aplicar trotes e pegadinhas no Sr. Belker. Este que, por sua vez, só queria aproveitar da mordomia e dos luxos do castelo. Sr. Garra costumava dormir e ficar nas matas próximas, aparecia raramente pra conversar, e dizia não gostar da cidade - fato que não era nenhuma surpresa, pois como o Sr. Águia lhe disse, ele era meio excêntrico, digamos.

Eu confesso que também sentia algo de estranho na cidade, mas o Doutor é capaz de ler os batimentos cardíacos, pulsação, mudança na retina, e enfim, ele consegue identificar as emoções e saber com precisão a veracidade do que as pessoas falam. E o líder da cidade falava a verdade, e as pessoas realmente eram felizes.

 

Certa manhã, dormia escorado numa árvore com o chapéu cobrindo o rosto quando fui acordado por um tumulto enorme. Sr. Belker em uma briga séria com o Sr. Granada e o Sr. Leeroy - não uma discussão ou uma briga entre amigos. O Sr. Granada pulava, se esquivando das machadadas que seriam fatais. Fui me aproximando as espreitas. O Doutor e Marklar já estavam interferindo no combate, e tentando descobrir o motivo do ocorrido.

Quando descobrimos a razão daqueles atos, soubemos que o Sr. Belker já estava muito mais “íntimo” do líder e já sabia de muitas coisas que nós. Claro que era bem mais complexo do que vou explicar, mas só fomos saber muito depois. Naquela altura o que ficamos sabendo foi que a cidade tinha uma “lei” de controle de população e era proibido que os casais tivessem filhos. Mas um casal acabou tendo um bebê e conseguiu esconder por mais de 2 anos. Naquela manhã, o líder descobriu, e a mando dele, Sr. Belker executou o casal. E estava prestes a executar a pobre criança. Não queríamos ferir ninguém. Só lembro-me de arrancar a criança dos braços do líder e correr, acompanhado do Doutor e o resto dos senhores. Precisávamos ir para o barco e pensar o que fazer, um confronto ali poderia ferir os cidadãos que nada tinham a ver com a situação.

 

Logicamente foi essa a traição que mencionei do Sr. Belker, que resolveu ficar e nos abandonar. O que me faz refletir sobre tudo que lhe falei anteriormente. Como esse humano, líder dessa cidade, poderia fazer tal crueldade “visando a prosperidade”, como ele dizia? E o Sr. Belker, como foi capaz dessa barbárie, e de se propor a tirar a vida de um bebê indefeso – ato que ele parecia extremamente disposto a finalizar? Me pergunto: ele realmente andava conosco para fazer o bem ou apenas pelo prazer das batalhas e matança?

 

Será que alguém pode ser corrompido e mudar tão bruscamente sob a influência de conforto e riqueza? Eu... Eu realmente não sei. É claro que a história ainda tem muitos detalhes para serem contados, ela não acabou naquele momento, mas já está na minha hora de ir e vou encerrando por aqui. Mas, para finalizar, gostaria de citar uma última parte, algo que me marcou.

Quando corríamos para fora da cidade, com o Sr. Marklar derrubando os guardas, o Sr. Granada, um dos mais ágeis, ficou pra trás. E antes de sair gritou para o Sr. Belker: “Por quê? Por que fez isso?” –  Em resposta, ele abriu os braços e disse: “Cara, nós estamos na cidade, temos que seguir as regras. Leis são leis.” – respondeu o Sr. Belker.

Então eu vi o Sr. Granada com lágrimas nos olhos, e pude ver que mesmo com as pegadinhas e trotes – ou talvez por causa delas –, ele gostava do Sr. Belker. Afinal, nós todos éramos como irmãos, e o Sr. Granada, malandro, falastrão, “catimbento”, foi o que mais se abalou, pode acreditar. No último momento, antes de sairmos, ele virou-se para o Sr. Belker e disse:

 

– “Tu era como um irmão pra mim...

... Eu tinha FÉ em você.”

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A obra e o site são dedicados em memória do Irmão, e eterno amigo Felipe Daniel Premaor(04/03/1988 ~ 16/07/2012)